De como uma abordagem crítica pode resultar em negacionismo

Num “post” de Facebook, escrevi que André Dias (AD), ao mesmo tempo que manifesta dúvidas pertinentes sobre as intervenções na pandemia COVID-19, comete muitos erros básicos, sobre diversos aspetos da pandemia, que lhe retiram alguma credibilidade. No espaço típico da rede social, não pude desenvolver essa minha crítica, mas os leitores e o próprio AD, de cuja boa intenção não posso duvidar, merecem maior esclarecimento. Infelizmente, a ocupação com que ando, porque há mais vida para além da COVID-19, não me permite agora comentar toda a sua exposição. No entanto, há um aspeto essencial que não pode ser deixado em claro.

Ao minuto 8:45 do vídeo, diz que “a curva da China é uma gaussiana perfeita ou uma distribuição normal perfeita”. É incorreto, mas fica a crítica para outra nota. Mais importante é o que vem a seguir. “Uma infeção na natureza desenha sempre uma distribuição normal. Esta é uma infeção em roda livre. Não há absolutamente nada aqui que esteja a alterar o padrão esperado – a quarentena chinesa não teve absolutamente efeito nenhum. Sobe e desce exatamente simétrica.”

A conclusão da ausência de efeito é absurda e desprovida de qualquer sentido científico. Sem intervenção ou com intervenção, claro que a FORMA da curva é sempre em sino e simétrica. Isto nada diz. O que interessa são os seus parâmetros, altura e amplitude, que também dão a área coberta pela curva, isto é, o número total de infetados. Também, porque dependente do número total de casos, o número total de mortes.

No caso chinês e de qualquer outro país que tenha seguido o seu modelo de intervenção, não é possível comparar esses parâmetros com um controlo negativo, isto é a ausência de intervenção. Concluir-se que não houve efeitos sem se saber qual teriam sido os parâmetros da “infeção natural”, como lhe chama AD é absurdo.

O modelo elementar da epidemiologia, SEIR, toma em conta as variáveis número de suscetíveis, número de expostos, número de infetados e número de recuperados. AD não é epidemiologista mas não pode então pronunciar-se se desconhecer o essencial da epidemiologia. É claro que a redução do número de expostos, pelo distanciamento social, não pode deixar de ter efeito. Pode é ter tido um efeito exagerado, o que é uma questão inteiramente diferente.

É preciso também considerar dois tipos diferentes de afetação da curva, derivada da intervenção e do seu grau. Um é o chamado achatamento, em que se mantém a área, mas com redução da altura do pico e com alargamento da curva, em amplitude temporal. Foi o que se anunciou geralmente como objetivo mas, de facto, o que se fez foi supressão, reduzindo tanto a altura do pico como até a sua largura (ou mantendo-a igual). Em qualquer dos casos, é óbvio que as curvas resultantes são sempre curvas em sino, simétricas. O argumento ou pressuposto de AD não é válido, e nem consigo perceber qual é a sua lógica.

No resultado final, ou pelo menos tal como é lido pelos leigos, a mensagem de AD parece negacionista. “Não interessa fazer nada, porque a epidemia segue sempre o seu curso natural”. É uma conclusão que de forma alguma partilho. Eu tenho dúvidas quanto ao modelo de intervenção, sobre o que ele teve de fogo de barragem, sobre o grau a que foram levadas as medidas de bloqueio e sobre a falta de fundamentação científica. Posso ter a ideia (mas sem base científica sólida) de que houve exagero em termos da consequência perigosa de um maior risco de uma segunda vaga de dimensão e consequências práticas (mortes, custos de cuidados de saúde e socioeconómicos) imprevisíveis. Mas daí a negar que houve efeitos das medidas de bloqueio é um salto que o mínimo espírito crítico científico não autoriza.

2 thoughts on “De como uma abordagem crítica pode resultar em negacionismo

  1. https://www.publico.pt/2020/04/22/mundo/noticia/covid19-primeira-morte-estados-unidos-ocorreu-tres-semanas-pensava-1913343?utm_source=notifications&utm_medium=web&utm_campaign=1913343&fbclid=IwAR0KDD6TfWUqjKVQWjohNwHwKZ26rnlxrUTEsGwB6pN40Qm_O_MwPAQFyMI

    se esta noticia for verdadeira, acaba por dar razão ao AD, pois estamos como no ditado…”casa roubada, trancas à porta”
    que adianta as medidas de confinamento se o virus teve o seu tempo de disseminação antes delas serem implementas…

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  2. Alguem aqui averiguou o CV do andre silva ? INFORMATICO que fez um doutoramento em modelação com uns aparelhos que medem a actividade fisica… por mero acaso aplicado aos dados de um doença pulmonar especifica. Como podia ter sido sobre o fabrico de parafusos. A sua tese de doutoramento nao faz qualquer referencia a doenças epidemicas, virus, contagios, quarentenas, ou qualquer coisa que o valha. NADA NIENTE ! Munido de um titulo pomposo “doutorado …doenças pulmorares” com um discurso populista endereçado a cegos que querem ver…… nasce uma estrela da internet. O AD tem tanto dominio dos numero que diz que o Brasil tem 260M de habitantes, diz que o virus foi criado por uma discussao de “vizinhos” na china, dizia que desaparecia na semana 19, diz que o virus na europa é apenas um negocio de clicks dos media, descredibiliza cientistas conceituados, entre muitas outras barbaridades. Achar que o andre é que descobriu o ovo de colombo é o mesmo que dizer que o rapaz das pizzas é que desvendou um secular problema matemático porque costumava lidar com trocos. Nao tendo ficado contente com o tema dos graficos, a fama subiu-lhe à cabeça e entrou em discussao de temas tecnicos com virologistas/infecciologistas/Pneumologistas em directo.. um fartote.
    O que o AD faz contra a ordem do pais e indicações das autoridades é CRIMINOSO E IRRESPONSAVEL
    Faz tambem uma perninha na pediatria, sociologia, psicologia, politica e agora mais recentemento é um incendiário constitucionalista, Ha algum tema que ele nao domine ?

    Nao tarde temos AD como primeiro ministro

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