Voltando ao acordo ortográfico

Dá-me a impressão de que a cruzada antiacordo se está a esbater, deixando quixotescamente em cena apenas alguns fundamentalistas, como Nuno Pacheco no Público. A minha posição tenta ser de bom senso, de simples escrevente da língua, sem critérios linguísticos académicos. Como alguém que, como talvez a maioria, hoje usa um teclado, até teria gostado de não estar sempre a usar duas teclas para caracteres modificados, por cedilha ou acentos. É querer de mais e causaria uma apoplexia em muita gente.

A ortografia é uma convenção. Às vezes, como fez o monge Cirílio, ao construir de raiz uma escrita, pode-se facilitar tanto uma leitura de base fonética quanto criar muito mais letras do que no nosso alfabeto. Noutros casos, como no inglês, manda o tradicionalismo e a ortografia parece disparatada. O “a” tanto pode ser “á” como “ó” como “é”, e o h passa pela escrita com variados efeitos fonéticos. “Through” bem podia ser “thru”. Mas já “tough” tem pronúncia completamente diferente.

O que está em causa neste novo acordo de 1990 não é o purismo académico nem a subjetividade de muitos intelectuais. Muito menos os pavores agitados pelos antiacordistas. Por exemplo, que a extinção das consoantes mudas vai modificar a pronúncia, conduzindo a fecharem-se a vogal seguinte. Quando aprendi a escrever, era sòzinho, mèdicamente ou pràticamente. A perda do acento grave levou a hoje fecharmos essas vogais?

Na prática, o AO90 tem a ver com coisas como a edição de livros, a escrita de documentos oficiais em todas as organizações internacionais e, sobretudo, as gerações de crianças que aprenderam segundo uma ou outra ortografia, bem como os seus educadores domésticos, que tiveram de se adaptar à escola. Mas é verdade que estes aspetos ficam muito discutíveis face à não ratificação do acordo por Angola e Moçambique.

O que é verdade é que todas as anteriores reformas ortográficas suscitaram iguais reações. Veja-se na Wikipédia em relação à reforma de 1911, que poria os antiacordistas de hoje à beira de uma apoplexia.

“A adoção desta nova ortografia não se fez sem resistências em Portugal, mas a maior polémica em seu torno estalou no Brasil. Alguns linguistas defendiam a ortografia etimológica em detrimento da ortografia puramente fonética das palavras, alegando que a reforma ortográfica cortava o elo entre os praticantes da língua portuguesa e os escritos deixados pelos seus antepassados. Outras pessoas resistiram à mudança, seja por receio de não saberem escrever pelas novas regras, seja por elo emocional ou intelectual à memória gráfica da escrita. Esse sentimento aparece refletido neste trecho de Alexandre Fontes, escrito nas vésperas da reforma ortográfica de 1911 (respeitando-se a escrita original do autor):

Imaginem esta palavra phase, escripta assim: fase. Não nos parece uma palavra, parece-nos um esqueleto (…) Affligimo-nos extraordinariamente, quando pensamos que haveriamos de ser obrigados a escrever assim!

E Teixeira de Pascoaes:

Na palavra lagryma, (…) a forma da y é lacrymal; estabelece (…) a harmonia entre a sua expressão graphica ou plastica e a sua expressão psychologica; substituindo-lhe o y pelo i é offender as regras da Esthetica. Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mysterio… Escrevel-a com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformal-o numa superficie banal.

Ainda, Fernando Pessoa:

Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portugueza. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa propria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ipsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.”

Repare-se no delírio argumentativo de Pascoaes e relembre-se um dos maiores disparates que por aí se diz sobre Pessoa e a sua pátria. O parágrafo inteiro é execrável. Pessoa cidadão é um verme comparado com Pessoa poeta. Que nunca se tome a pessoa Pessoa como exemplo.

Mas mesmo a nossa mais do que assimilada reforma de 1945, que os antiacordistas defendem, levantou problemas. E vejam como se escrevia antes, mesmo depois da reforma de 1911. Com um ano de idade, não me apercebi…

“O Acordo Ortográfico de 1945 pretendia alcançar uma unificação ortográfica absoluta por meio de concessões mútuas das duas ortografias então vigentes, sendo que as alterações no Brasil seriam muito mais profundas que as de Portugal pois revertia a supressão de consoantes mudas introduzida pela reforma brasileira em 1943 que tornavam a grafia de muitas palavras incompatível com a prosódia de Portugal. Além disso, foi feita uma simplificação da acentuação com mudanças que atingiam ambos os países. Porém, como o Brasil acabou não aplicando as alterações, essa simplificação só ocorreu em Portugal, de modo que o Acordo teve o efeito oposto ao pretendido, com o aumento das diferenças ortográficas.

Mudanças em Portugal:

As formas de terceira pessoa do plural do presente do indicativo dos verbos ter e vir passaram de teem e veem a têm e vêm, e isso se estende aos derivados: conteem → contêm, interveem → intervêm. Com isso, a pronúncia de têm e vêm em duas sílabas ([tãjaj] e [vãjãj] ou [tẽjẽj] e [vẽjẽj]) ficaram sendo consideradas como dialetais.

Palavras como tambêm, Jerusalêm, (êle) contêm, (êle) intervêm passaram a ser grafadas também, Jerusalém, (ele) contém, (ele) intervém.

Palavras iniciadas com “sc” perderam o S inicial: sciência → ciência, scisão → cisão. O S continuou em derivados antigos, como consciência e rescisão.

Passou-se a exigir a inclusão de consoantes mudas em um pequeno número de palavras em que não eram pronunciadas em Portugal, mas o eram no Brasil, quer geral, quer restritamente (caracteres, cacto, tecto).

Deixou-se de usar sinal diacrítico para indicar que o U é pronunciado em palavras como freqùente ou agùentar, passando a frequente e aguentar. A grafia Gùiana foi desautorizada.

Abolição das sequências mm e nn em palavras como emmalar e ennegrecer (passando a emalar e enegrecer). Nessas palavras, a primeira letra da dupla servia para marcar a nasalização da vogal precedente. No entanto, continuou a grafar-se connosco e comummente.

Regularização do emprego do hífen

Desautorizou-se marcar o hiato átono de palavras como saìmento

Abolição de Z em fim de sílaba átona e X em fim de sílaba com valor de S depois de qualquer vogal que não E: azteca → asteca, juxtapor → justapor

Abolição do acento em I tónico de hiato quando seguido por NH: raínha → rainha

Abolição do acento agudo em ditongos que não fossem invariavelmente abertos em ambos os países (combóio → comboio).

Mudanças que afetariam os dois países[editar | editar código-fonte]

Abolição do acento circunflexo diferencial em palavras como êle, gêlo, côco, sôbre.

Abolição do acento agudo em I e U tónicos precedidos de ditongo em paroxítonas, como em feiúra, tauísmo, sendo mantida a grafia de oxítonas como Piauí e pauis.

Dispensa de acento na vogal tónica U, quando, numa palavra paroxítona, precedida de i e seguida de s e outra consoante: semiústo → semiusto.”

Dito isto, gostava de ver uma posição antiacordista pela positiva. Posições d simples crítica houve em todas as revisões ortográficas e foram ultrapassadas pela prática, com aceitação institucional e popular ao longo do tempo. O que se propõe como alternativa? O acordo de 1945, que também foi muito criticado? É interessante comparar as críticas de 1911 e de 1945 com as atuais.

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