Novo lumpen

Marx discorreu bem sobre o lumpen-proletariado. Mas talvez cada classe tenha o seu lumpen. Por exemplo, Trump parece-me ser o bom exemplo do lumpen-capitalismo. Também noutras classes, como discutirei a seguir.

Desde há muito que observo a sociedade olhando para comportamentos exemplares. Talvez seja herança de uma das muitas máximas da sabedoria de uma das minhas avós: “vê-se um homem pela maneira como se porta em três mesas: do jantar, do jogo, dos negócios”. As lições da minha avó nunca me falharam, embora tenha frequentemente de as moderar em relação ao seu espírito de velha senhora.

Nos tempos de hoje, um dos meus campos de visão experimental é o da circulação automóvel. Não é novidade, há quem tenha estufado o automóvel como instrumento fálico, como instrumento de poder, até como meio inconscientemente suicida. Eu vejo-o muito como reflexo de uma cultura que adiante tentarei caracterizar.

A lista de comportamentos típicos é extensa. Estacionar num lugar em que outra pessoa visivelmente estava a preparar-se para o fazer, estacionar sem corrigir a posição e ocupar dois lugares, nunca cumprir as regras de prioridade, fazer gincana por impulso para a ultrapassagem seja como for, considerar as rotundas como terra de ninguém, etc., etc.

Mas foi um caso particular que me motivou esta nota. Regressava da margem sul, no acesso à ponte 25 de abril, e reparei em coisa estranha. Havia três faixas. A da esquerda era para a Via Verde e, logicamente, seria a mais despachada. A do meio era para as cabinas da portagem e a da direita para quem vinha de Almada. No entanto, a da Via Verde, com bicha desde há quilómetros atrás, era a mais lenta, com a do meio visivelmente mais rápida. Ao fim de algum tempo, não foi difícil perceber porquê. Como aliás se passa em outras auto-estradas, era gente, às dezenas, que ia até ao possível – mesmo traço contínuo – na via do meio e que depois se metia na via prioritária, demorando imenso o trânsito. Não tinham percebido, por distração, coitados, que havia centenas de outros automobilistas que já se tinham colocado ordenadamente naquela fila!

Este é um exemplo de padrão de comportamento global, egoista, antissocial. Talvez esquematicamente, tendo a classificar as coisas em termos psicológicos e sociológicos. Não posso dizer que seja regra, mas o que vejo da gente que assim se comporta indica-me que fazem parte de um grupo especial de nova classe média. Os “novos”, como os novos ricos, sempre tiveram características comuns. Novos, têm origens diferentes das que alcançaram, embora este alcance seja pequeno e pouco significativo em termos de nova cultura. São tão provincianos como os pais, mas, enquanto que estes, taxistas, camionistas, merceeiros, empregados de supermercado, eram genuinamente o que eram, os filhotes deslumbraram-se com o seu canudo, têm como elegância máxima a especiaria que juntam ao gin tónico.

Hoje, é inegável a importância da classe média, embora se tenha de discutir muito o que isto é. Ficará para o meu futuro “Utopia Hoje”. O que me parece é que esta gente, em relação à classe média, também é lumpen e merece toda a crítica pejorativa que Marx fez do seu congénero, o lumpen-proletariado,

Outra coisa que ainda mais me impressiona é que aqueles comportamentos são muitas vezes praticados na presença dos filhos. A maldade humana é genética!

Também a nossa cultura de complacência. Naquele exemplo, eram muitos os carros que facilitavam a entrada dos checos espertos. Que fazer contra este círculo vicioso? Afinal, todos parecem compreender, porque também o fazem, o esquema de dá-se um jeitinho, salve-se como se puder, untar as mãos, meter uma cunha.

Isto é cultura que passa por cima das reformas políticas. 40 anos depois do 25 de abril continua vivo na nossa sociedade e não parece estar na prioridade de nenhum partido. Mesmo muita gente de esquerda que leio ou que comenta os meus escritos privilegiam o imediatismo, a política social, o estado social de bem estar. Claro que têm razão em defender isto, mas não basta,

Mais decisiva é a mudança da mentalidade. O povo não é uma entidade mítica. É o produto de muitas condições culturais, económicas, sociais, geopolíticas. Antero continua atual, nas suas “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”. O português típico, descontados os riscos da generalização, continua a ser o Zé Povinho albardado pela grande porca.

A esquerda deve defender o SNS, as liberdades, a segurança social, a escola pública, a soberania nacional? Indiscutivelmente. Mas acima de tudo, entender que o futuro é de gente com mentes educadas, livres, racionais, capazes de resistir à desinformação, críticas. E com espírito cívico bem enraizado.

A prioridade é educação, educação, educação. Entendida como formação de homens com intelecto livre.

Política romântica, “petty”

No quadro do pós-modernismo, irracionalista, fraturante, quadro ideológico dos intelectuais “petty”, as causas tomaram conta da ação política baseada na ideologia de classe, na noção da estrutura da exploração, da natureza do sistema. Nos pós, também é o pós-estruturalismo, relativizando tudo, abolindo todas as regras de aferição do rigor.

Agita-se uma bandeira, não se reflete, vai-se na onda. Até em coisa tão elementarmente simples como a linguagem, controlada orwellianamente pelo politicamente correto, ou melhor pelo politicamente caricato.

Os marxistas lúcidos têm a obrigação de desmontar isto, como Marx fez, como manifestação ideológica do radicalismo pequeno-burguês ao serviço final do capitalismo.

Um dos temas em foco é a emigração.Claro que, em tempos de imperialismo unipolar, de destruição de estados, de remissão de milhões de pessoas para a situação de refugiados, estes têm o direito a toda a proteção humanitária.

No entanto, as reações neofascistas contra as migrações não se referem a estes, uma minoria. Como sempre esteve em jogo no fascismo, o problema é o da convulsão da estrutura do mercado de trabalho, a emergência de competições.

Vem-me a propósito a minha experiência do racismo em Angola, há 50 anos. Grosso modo, havia três grupos de portugueses brancos: 1. os velhos colonos, na onda de Norton de Matos; 2. os militares da guerra colonial que lá ficavam; 3. o “batalhão Ferreira da Costa”. Os primeiros tinham um racismo “soft” em que a cor da pele mudava relativamente pouco em relação ao “racismo” contra o pobre reinante em Portugal. Os segundos tinham aprendido a respeitar o negro como combatente, como homens tesos. O pior era o batalhão, arregimentado na rádio por esse fascista, “para Angola, em força”. Eram gente subquaificada, que se foram defrontar com uma camada de africanos – contradição do colonialismo fascista – que o regime tinha “promovido” a trabalhos menores, como motoristas, camionistas, contínuos, empregados de restaurante. Foi nessa competição que se desenvolveu o racismo mais virulento.

É isto que se está a verificar na Europa, com os migrantes a preencherem miseravelmente, sujeitos a toda a exploração, os lugares de que europeus foram despedidos. O exército laboral de  reserva, já discutiu Marx há tantos anos.

A esquerda romântica pode ficar na ilusão política das suas causas, mas sempre a dar tiros nos pés. É urgente diferenciar a emigração por causas humanitárias e a emigração económica. Esta sempre foi controlada e esse controlo é hoje fundamental, para combater a emergência do fascismo. E o combate, forçosamente internacional, não se pode fazer a jusante, com milhares de pessoas em risco de vida, mas a montante, eliminando o tráfego de seres humanos. Se se destruiu a Líbia como estado, então que haja agora uma intervenção legítima para eliminar negócio tão desumano.

A regulação da emigração económica é-me familiar desde criança, como açoriano, terra de emigrantes. Sempre ouvi falar das célebres e desejadas cartas de chamada. Era violência contra os direitos humanos?

Há dias, a nova ministra britânica do Interior, Priti Patel, disse que “she would stop the “automatic right of entry for EU citizens, with or without work” in order to give the “type of preference to brilliant scientists, academics and highly skilled workers that we want to see more of”. (“ela iria acabar com o “direito automático de entrada para os cidadãos da UE, com ou sem trabalho”, a fim de dar preferência a cientistas brilhantes, académicos e trabalhadores altamente qualificados de que queremos ver mais gente.”) É criticável?

A tristeza das elites convencidas

A campanha avulsa, depois movimento organizado, contra a vacinação, começou com o sarampo e está agora em grande foco também por causa do sarampo. Isto não quer dizer que não tenha a ver com uma atitude “antivax” geral, como veremos adiante. E começo por uma nota: o sarampo não é uma doença benigna. Eu que o diga, como pai de uma criança de meses com uma grave pneumonia do sarampo, quando não havia vacina e a gama de antibióticos era restrita.

Psicologicamente, em relação a muitos outros conflitos entre medicina científica e pseudomedicinas, este tem um aspeto especial: injeta-se “qualquer coisa” relacionada com agentes patogénicos para se obter imunidade. Contra todo o conhecimento da microbiologia e da imunologia, esta ideia de leigo é forte, psicologicamente. Não estou a “envenenar” o meu filho?

Não é nada de novo. Por mais que saibamos que 1977 é um ano memorável, o do último caso de varíola no mundo e em 1979 foi a declaração oficial de erradicação de uma doença, pela primeira vez na História, a varíola, uma doença que matou milhões, é preciso lembrar que a genial intuição de Jenner teve reações de feroz oposição. A gravura que mostro foi só um exemplo.

No século XX, a vacinação era dado culturalmente adquirido. Os pais da minha geração de pai lembravam-se bem das doenças infantis que tinham tido e regozijavam-se com o facto de os seus filhos as desconhecerem cada vez mais. Até ao grande e irracionalista movimento contracultura que nasce da conjugação de maio de 68 e do hipismo americano. Com muita coisa positiva, até no protesto, mas uma enorme carga obscurantista que ainda hoje pagamos. Até no ridículo de gente da minha geração que não tem outra coisa a recordar como justificação de vida senão o maio de 68, a pseudorrevolução autotraída.

Pode-se datar o antivax com a publicação de uma das mais criminosas e fraudulentas publicações científicas, de um Dr., (título depois retirado) Andrew Wakefield, inglês, que publicou um artigo — comprovadamente hoje, uma falsificação – pretendendo associar a vacina anti-sarampo a autismo, via um inventado síndroma intestinal do autismo. Expulso das ordens inglesa e americana, continua hoje a ter uma próspera vida, graças a clínicas em nome de outros. Para se ter razão na denúncia das pseudomedicinas, é preciso reconhecer que a medicina também tem albergado grandes fraudes.

A coisa do autismo acabou por se diluir em múltiplas contribuições da contracultura para o antivax. Ou eram os excipientes, como o tiomersal, ou por serem químicos (há coisa mais simplesmente química do que a água, H2O?), ou por desregrarem o sistema imune (que passa a vida a ser “desregulado” por exposição a novos antigénios), ou era um vago “peace and harmony with nature”). Assim, do sarampo e da sua base pseudomédica, passou-se para a vacinação, em geral.

É bem sabido que esta vaga, como todas as da contracultura, tem a característica importante de não se radicar num grupo social desfavorecido, inculto, arredado dos benefícios da medicina moderna. Pelo contrário, são classe média ou média-alta, universitários, com um libertarianismo de juventude a fazer de alibi para uma boa vida de “establishment”. É pena que, entre nós, nem esperem por essa idade da hipocrisia.

Há duas doenças virais que, depois da varíola, foram alvo de campanha mundial de erradicação: a poliomielite, vulgo polio, e o sarampo. Em ambos os casos, confiava-se justificadamente na eficácia da vacina, como tinha acontecido com a varíola. No caso da polio, viu-se que há razões técnicas, políticas e sócio-económicas que complicam a perspetiva de erradicação, principalmente no mundo menos desenvolvido. É discussão que não cabe aqui, embora muito importante.

O sarampo é radicalmente diferente, porque o problema está no mundo desenvolvido, onde habitam os antivax. Os EUA vivem hoje uma autêntica epidemia e mesmo nós temos tido surtos inadmissíveis em termos dos meios que temos de saúde pública.

Por razões técnicas que o espaço não me permite desenvolver, cada criança não vacinada, acima de uma percentagem que já ultrapassámos, não é só um risco para si, é principalmente para a comunidade, principalmente em grupos em que ainda está em começo a imunização, como as creches.

Como em muitas outras coisas, não podemos ser maniqueistas. Os pais antivax não são monstros, agressores dos seus filhos. São produto de uma cultura, de movimentos de fluxo e de refluxo da sociedade. Sabem que a raiva, doença mortal e felizmente hoje rara, é tratável com a vacina? Se disserem aos pais de uma criança mordida que a sua única esperança de vida é a vacina, mesmo sendo antivax, como reagirão? E nem falo de homens de negócios que vão a consultas de viajantes recusando todas as vacinas menos a da febre amarela, por ser obrigatória para a viagem de negócios.

Por fatores históricos, a começar pela reação contra a vacinação de Jenner numa Grã-Bretanha muito dependente das liberdades individuais, a vacinação ainda hoje tem uma forte conotação de direito sem dever. O caso italiano é exemplo recente. Era um país com forte imposição da vacinação, mas o movimento populista pseudo-esquerda do 5 Estrelas, que controla o Ministério da Saúde, tornou a vacinação facultativa.

Nós temos oscilado. A vacina antitetânica era obrigatória, assim como foi o BCG. Com a liberdade, veio algum excesso dos direitos individuais em relação aos sociais. Atualmente, temos um ótimo plano nacional de vacinação, mas recomendado, não obrigatório.

Defendo veementemente que devia ser obrigatório, como muitas outras obrigações que temos para contribuirmos, como indivíduos, para o bem comum.