A pensar já na segunda onda

Depois da Noruega, é agora o governo francês que afirma que, na previsão de uma segunda onda, não será adotado novamente o confinamento (“lockdown”). Em vez disto, tomarão medidas dirigidas. Não sei bem o que querem dizer com isto mas presumo que se pense numa estratégia baseada em “seguir e rastrear” (“track and trace”): detetar precocemente os novos casos e isolá-los eficazmente, identificar os contactos e avaliar o seu grau de risco de infeção e transmissão, testá-los periodicamente e mantê-los em quarentena.

Atualmente, já se conhece o suficiente para se saber que é provavelmente a melhor estratégia, sem descurar os cuidados com outros fatores — ajuntamentos, concentração demorada em lugares fechados e em transportes públicos sobrelotados, distanciamento físico, lavagem frequente das mãos (embora a transmissão por gotículas depositadas pareça já ter relativamente pouca importância), etiqueta respiratória. Com isto, muitos países europeus estão a conseguir conter rápida e eficazmente focos que vão aparecendo, com um grau de medidas gerais no desconfinamento muito mais leve do que o que estamos a praticar.

Tenho visto alguma confusão em relação ao “seguir e rastrear” generalizado como modelo asiático. De facto, houve três modelos asiáticos, embora com sobreposições. Na China, o rastreamento teve muito menor relevo do que o isolamento massivo, muitas vezes com toda a gente de um prédio inteiro retida em casa, sem nenhuma possibilidade de saída do domicílio ainda que não fossem contactos próximos. O grande modelo de “seguir e rastrear” não foi chinês, mas sim sul-coreano, com grande uso também de meios tecnológicos de inteligência artificial (que agora a Alemanha já está também a usar com intensidade). Outros países asiáticos, num terceiro modelo, confiaram principalmente no encerramento muito rigoroso da fronteiras.

Finda a primeira fase da pandemia na Ásia (embora com casos residuais na Coreia do Sul e surtos importantes em Singapura e no Japão), sabemos hoje que a estratégia coreana foi superior, em termos de custos-benefícios. Com muito menos sacrifício pessoal e económico do que na China, a Coreia do Sul, com a mesma população que a província chinesa de Hubei, que concentrou a maior parte da epidemia, teve muito menos casos, cerca de cinco vezes menos e 16 vezes menos mortes.

Portugal está muito menos preparado do que outros países europeus para uma estratégia eficaz de “seguir e rastrear”. Não há falta de recursos no que se refere a testes, sendo um dos países com. maior número de testes por habitante. No entanto, não é claro se isto se traduz num uso criterioso da testagem, que muitos dados indicam ter sido feita de forma não suficientemente orientada para a vigilância epidemiológica eficaz, nomeadamente na testagem de contactos. O que faltam são os recursos humanos e, provavelmente, a boa organização do sistema de vigilância. Aliás, não é só nesta situação. Quem lida com doenças infeciosas de vários tipos sabe bem como são precários ou inexistentes na prática os sistemas de vigilância epidemiológica.

Tenho lido sinais de algum fatalismo: não formámos especialistas de saúde pública em número suficiente e não podemos inventá-los agora, nem sequer recorrendo a enfermeiros para o rastreio. Não é a verdade completa. O rastreio não exige obrigatoriamente médicos ou enfermeiros. Pode ser feito, até por “call centers”, por pessoas com um bom nível educacional e de infoliteracia, habituadas a inquéritos, sejam até os de marketing. A decisão sobre as medidas a adotar em relação a cada contacto de risco é que compete ao médico de saúde pública, mas é só o passo final do processo (fora o acompanhamento, que também não é preciso ser feito exclusivamente por pessoal de saúde).

Um sistema de vigilância epidemiológica capaz de conter rapidamente os focos que certamente iriam aparecer foi um dos critérios da OMS e da Comissão Europeia para o desconfinamento. Tivemos o período de confinamento para preparar um sistema capaz de vigilância epidemiológica mas, chegados ao esgotamento das possibilidades económicas, sociais e políticas do confinamento, temos um sistema comprovadamente deficiente. Ao desconfinar, a Alemanha, por exemplo, dispõe de 21000 rastreadores, um por cada 4000 habitantes, distribuídos por 400 centros. Berlim, duplicou o número de elementos do seu sistema. O Reino Unido contratou celeremente 18000 pessoas para esse efeito e só Madrid contratou mais 770 elementos.

Não é fácil apurar os números em Portugal, onde a transparência da informação fica atrás de muitos outros países europeus. Conhecem-se alguns números locais, pouco animadores. Por exemplo, segundo informações colhidas na imprensa, a Amadora terá atualmente cerca de um rastreador por 18000 habitantes, muito longe da taxa alemã ou da recomendação internacional de 1 por 3300. Também em Loures e Odivelas se noticia que há quinze rastreadores, o que, a ser verdade, significa um rastreador para 23000 habitantes.

Não há tempo a perder, porque o outono já não vem longe. A prioridade das prioridades é a contratação de rastreadores. Esqueçam-se os entraves burocráticos, arranje-se financiamento, invente-se uma fórmula de contrato fácil, rápido e aliciante. Ou comece-se já a pensar nos termos de novo confinamento, talvez necessariamente tanto ou mais rigoroso do que o que tivemos.

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