As máscaras na COVID-19

Nesta epidemia vamos sempre aprendendo. Inicialmente, tive muitas reservas em relação ao uso das máscaras. Não havia fundamento científico e podia haver riscos na sua utilização sem cautelas. Não fiz mais, aliás, do que alinhar com a posição da OMS e da DGS. Também a pressão contrária do bastonário da Ordem dos Médicos e dos “especialistas” diretores das escolas médicas eram então infundamentadas e na onda de exageros alarmistas que os têm vindo a caracterizar.

Nem era sensato defender uma coisa que o mercado não permitia, causando uma corrida à compra de máscaras necessárias para os profissionais de saúde.

Agora, com o começo do desconfinamento, a situação alterou-se. Sendo obrigatório o seu uso em espaços fechados, discuti-lo é contribuir para a indisciplina, essencial numa situação potencialmente perigosa.

E, principalmente, no que me toca, tenho razões para atenuar as minhas reservas.

O uso da máscara, como outras medidas, teve inicialmente por base um raciocínio simplista, de imitação. A China fê-lo, a China dominou a sua epidemia, logo as máscaras são necessárias. O mesmo para todas as duríssimas medidas que a China tomou, sem que ainda hoje se saiba exatamente quais e em que grau foram as necessárias para o indiscutível sucesso chinês. (Entre parênteses, o uso de máscaras não era coisa estranha para o povo chinês, que as usava frequentemente como proteção contra a poluição). 

E, na Europa, a República Checa andou sempre a afirmar que o sucesso da sua supressão se devia ao uso obrigatório das máscaras, que nenhum outro país europeu decretou. Como se muitos outros países não tivessem tido idêntico sucesso, sem as máscaras. Em toda esta situação, o discurso político tem ganho ao discurso científico.

O uso da máscara tem de ser visto à luz do mecanismo de transmissão do vírus. Com muito de desconhecimento natural, ao princípio, as autoridades sanitárias chinesas basearam-se não na gripe mas no que tinham aprendido com o modelo bem sucedido de supressão da epidemia de SARS, em 2003, que acabou por ser debelada ao fim de infetar apenas cerca de 8000 casos (85% dos quais na China e Hong Kong), causando cerca de 900 mortos.

No entanto, era em contradição com o que se soube cientificamente. O SARS-CoV-1 era transmitido apenas por gotículas de tosse e passagem para as mãos dos que tocassem em superfícies contaminadas. E era transmitido só por infetados sintomáticos.

Nestas condições, as máscaras, como proteção das pessoas não infetadas, seriam irrelevantes. Pelo contrário, a recomendação essencial sempre foi a lavagem frequente das mãos.

Há, no entanto, um caso especial, o do pessoal de saúde. Por um lado, estão expostos a uma abundância – chamemos assim – de vírus muito superior à dos ambientes comuns. Por outro, algumas das operações clínicas, como a intubação e a ventilação, originam aerossois portadores de vírus.

São coisas diferentes. As gotículas de muco e saliva, que levam o vírus consigo, são causadas por processos violentos, como a tosse o espirro 9que não é sintoma na COVID-19). São relativamente pesadas e caem rapidamente e a curta distância (um a dois metros) para o solo ou outras superfícies, onde o vírus se mantém infeccioso durante algum tempo, dependendo do tipo de superfície, da temperatura e da radiação ultravioleta.

Os aerossois são constituídos por gotas muito mais pequenas, que ficam a flutuar durante muito mais tempo e podem ser inaladas. Produzem-se sempre que o ar ou outro gás passa tangencialmente sobre uma camada mole ou líquida, por exemplo de muco e, teoricamente, podem ser produzidas por operações não violentas, como a fala e a própria expiração.

No caso da COVID-19, as experiências já feitas são duvidosas, porque usam aerossois artificiais que podem não reproduzir adequadamente a situação real. No entanto, há um dado relevante que dá, indiretamente alguma plausibilidade ao interesse do uso de máscaras.

Sabe-se já bem que mais de 80% dos infetados não apresentam sintomas e, logo, não têm tosse produtora de gotículas infetantes. Mas, mais recentemente, verificou-se que os assintomáticos podem transmitir o vírus, pelo menos 12 a 24 horas antes do aparecimento dos sintomas, o que levanta a possibilidade uma transmissão por aerossois. Neste caso, a máscara passa a ser um meio justificado de proteção.

De qualquer forma, a máscara é importante, mesmo que não para proteção individual, para evitar a transmissão por quem já está infetado. Como a probabilidade de isto ocorrer aumenta com o desconfinamento e em ambientes fechados e com várias pessoas, julgo justificar-se a obrigatoriedade agora decidida. E também creio, pelo que disse, que não é medida que venha atrasada.

Claro que devia haver bom senso e sentido crítico, mas é difícil em situação de medo. Poupem as máscaras para ir ao supermercado ou ao comércio agora aberto, em vez de as desperdiçarem no passeio do cão ou no descanso no jardim sem uma pessoa à vista. Ou a guiar o carro, sozinho.

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