Guias pouco confiáveis

Não é só cá que ouço de raspão guias turísticos a dizer inverdades, mas cá choca-me mais. Mais ainda, claro, quando toca às minhas ilhas, cuja especificidade cultural, histórica, gastronómica, merece bem ser conhecida pelos visitantes, incluindo, claro, os continentais.

Há dias, foi no Porto, numa volta turística para os participantes estrangeiros e alguns portugueses numa reunião médica internacional. O jovem guia era muito comunicativo, falando inglês fluentemente, embora com um erro significativo que estava sempre a repetir: bel(d)ges em vez de Belgians. Significativo porque, no seu sentido de humor peculiar, estava sempre a referir-se a anedotas ou a fazer piadas sobre belgas. Ao menos, podia ter tido o cuidado de saber se havia belgas no autocarro. E até havia!

Boa parte da sua charla foi sobre história e realidades de Portugal e aí é que meteu bem o pé na poça. “A princípio, vieram os romanos, que cá estiveram uns séculos, até os árabes invadirem a península”. Coitados de iberos, celtas, fenícios, cartagineses, gregos, antes dos romanos, e variados bárbaros depois dos romanos, com destaque para os visitados. Todos esquecidos. Mas, vá lá, falou dos lusitanos, como sendo assim chamado pelos romanos o povo que é hoje o português!

Fiquei também a saber que “os mouros não conseguiram passar o Douro e, por isto, o Porto é a cidade invicta”. E eu a pensar que a ocupação árabe só tinha falhado uma nesga nas Astúrias… Mas ele não gostava da ideia da ocupação de Portugal. Assim, passando pela estátua de D. João VI, disse bem convencido que “a fuga para o Brasil tinha impedido os franceses de ocuparem Portugal”. Por onde andaste então tanto tempo, Junot?

Voltando atrás, “D. Henrique era da Borgonha (e lá veio mais uma piada aos belgas…) e foi feito conde como prémio de muitos feitos de guerra contra os mouros no sul da península”. Fiquei também a saber que “a mais importante batalha da história portuguesa foi a de Ourique”.

Já chega, mas deixo a última pérola: sabem qual é a principal exportação portuguesa (se calhar do Porto)? É a maquinaria industrial! E essa, hem, diria Pessa.

Parece-me que está a ser necessário o selo de garantia na atividade de guia turístico. É mais importante do que a qualidade das sardinhas.

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