Batata frita e arroz

Em discussão no Guardian sobre a degenerescência infantilizante de um falar inglês transformado pela televisão e pela imitação dos teenagers, deparei-me com uma comparação que muito nos diz respeito. “é como acompanhar com batata frita e arroz”. Tenho para mim que é, de facto, uma coisa aberrante de mau gosto que os pequenos restauradores de origem nortenha-galega nos fizeram adotar, acriticamente.

Para mim, claro que não liga, nem é preciso argumentar. Mas pensei: que direito tenho a impor o meu gosto aos milhares de pessoas que gostam disso? Ou, como muitas vezes discuto com uma muito próxima “libertária”, porque é que hei-de considerar muita gente como indigentes mentais,a precisarem de ser educados em estética, racionalidade ou até, muito mais simplesmente, a serem protegidos de erros nas suas escolhas conscientes (por exemplo, de terapias alternativas)?

Afinal, isto leva a uma antiquíssima questão, longe de ainda hoje respondida. Melhor, sempre vista, no momento, à luz da dialética indivíduo-sociedade (e seus padrões). Revisitando Rousseau, mas principalmente, refletindo na velha questão: “gostos não se discutem?”

Parece-me claro que há nesta questão uma dualidade a equilibrar. Como Antero titulou, “bom senso e bom gosto”. Tudo é cinzento (se descontarmos o cromatismo). Eu devo respeitar o gosto dos outros, no sentido de não humilhar as pessoas, de não as ridicularizar. Mas, tendo tido o privilégio de ser membro da elite intelectual, tenho o dever de “ética do conhecimento” (Jacques Monod), de reconhecer padrões de desenvolvimento estético e de facultar os meios de conhecimento para que os meus cocidadãos os possam avaliar, testar na prática em relação aos seus costumes e decidir.

Esta é questão essencial. Não se trata de impor de cátedra padrões e critérios. Antes discutir os seus princípios e desafiar cada um a desenvolvê-los na sua prática. 

Claro que também não é fácil entender-se o que é esse desenvolvimento estético. É evidente de um ponto de vista de análise que diria entre a estética e a epistemologia, a resultante da análise histórica do que as elites foram construindo como bom gosto, mas articulado com o gosto e cultura popular. Quanto da excelente música de Bartok, até de Lopes Graça, se radica na cultura popular?

Isto não é elitismo, no sentido de privilégio de uma “classe”. É só o reconhecimento factual de que, em toda a história da humanidade, foram sempre os homens mais educados, mais capazes intelectualmente, que marcaram a evolução do pensamento. Claro que, fundamentalmente, quando com uma visão de progresso, com uma utopia, e mesmo, no mais alto grau, na condição de “intelectual orgânico”.

Reconheça-se que há sempre uma tensão entre cultura erudita e cultura popular, mais até de gosto erudito e gosto popular. Em muitos casos, e até sem base de conhecimento técnico, há arte não erudita de grande qualidade, que até pode ser assimilada pela cultura erudita. Ainda ontem me lembrei disto, ao ver um “trailer” de um filme sobre António Variações. Mas duvido que alguma vez se passe o mesmo com Quim Barreiros. Deixo aos leitores o desafio de pensarem porquê essa diferença.

Volto à cozinha, também uma arte em que coexistem as versões eruditas e populares. Anote-se que a coisa é um pouco mais complicado, quando se fala do popular. Há a excelente cozinha tradicional, que só precisa de ser adaptada aos usos atuais de refeições mais leves e a algumas normas dietéticas. Outra coisa é o que nos foi impingido como gosto popular, como tal batatas e arroz, ou piri-piri em excesso, ou grelhado melhor do que tudo, mesmo que inadequado ao material ou mal executado (na maioria dos casos).

Há bastantes anos, Stau Monteiro, aliás Manuel Pedrosa, ficou célebre, na inesquecível Mosca do Diário de Lisboa, pelos seus exemplos do gosto pequeno burguês em ascensão: a família que se passeava ao domingo no novo centro comercial, ele de fato de treino roxo com tiras fosforescentes, ela de casaco co gola de pele sintética. Que regressavam a casa no Corolla com uma cãozinho a abanar a cabeça junto ao vidro de trás, sobre um naperon bordado pela sogra. E que, máximo dos máximos, iam depois jantar jaquinzinhos com natas.

Esta família X não é o estereotipo realista de uma família de mau gosto? Deve ser educada ou deixada literariamente ao seu direito ao mau gosto? Ou o seu gosto não é mau, é tão legítimo (o que aceito) e tão bom (o que não aceito) como o meu meu? Qual é responsabilidade dos intelectuais? Pensar que os “pobrezinhos mentais” devem poder viver a sua pobreza cultural, sem paternalismos, enquanto que eles, intelectuais, coçam uns aos outros a sua comichão de ego?

E, para banalizar o final destas notas, ninguém me convence de que é respeitável o nosso hábito enraizado de misturar o tempero gorduroso-ácido da salada, no mesmo prato, com um eventual bom molho da carne ou dado peixe. Nem que é respeitável o bom gosto dos restaurantes da baixa que impingem aos turistas menus repetitivos de uma cozinha à Quim Barreiros.

Claro que não desejo que Yoda a gente se guie por Escoffier, ou, no nosso caso, por Bento da Maia ou Oleboma. É aqui que entra o outro elemento do binómio anteriano, o bom senso.

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