A tristeza das elites convencidas

A campanha avulsa, depois movimento organizado, contra a vacinação, começou com o sarampo e está agora em grande foco também por causa do sarampo. Isto não quer dizer que não tenha a ver com uma atitude “antivax” geral, como veremos adiante. E começo por uma nota: o sarampo não é uma doença benigna. Eu que o diga, como pai de uma criança de meses com uma grave pneumonia do sarampo, quando não havia vacina e a gama de antibióticos era restrita.

Psicologicamente, em relação a muitos outros conflitos entre medicina científica e pseudomedicinas, este tem um aspeto especial: injeta-se “qualquer coisa” relacionada com agentes patogénicos para se obter imunidade. Contra todo o conhecimento da microbiologia e da imunologia, esta ideia de leigo é forte, psicologicamente. Não estou a “envenenar” o meu filho?

Não é nada de novo. Por mais que saibamos que 1977 é um ano memorável, o do último caso de varíola no mundo e em 1979 foi a declaração oficial de erradicação de uma doença, pela primeira vez na História, a varíola, uma doença que matou milhões, é preciso lembrar que a genial intuição de Jenner teve reações de feroz oposição. A gravura que mostro foi só um exemplo.

No século XX, a vacinação era dado culturalmente adquirido. Os pais da minha geração de pai lembravam-se bem das doenças infantis que tinham tido e regozijavam-se com o facto de os seus filhos as desconhecerem cada vez mais. Até ao grande e irracionalista movimento contracultura que nasce da conjugação de maio de 68 e do hipismo americano. Com muita coisa positiva, até no protesto, mas uma enorme carga obscurantista que ainda hoje pagamos. Até no ridículo de gente da minha geração que não tem outra coisa a recordar como justificação de vida senão o maio de 68, a pseudorrevolução autotraída.

Pode-se datar o antivax com a publicação de uma das mais criminosas e fraudulentas publicações científicas, de um Dr., (título depois retirado) Andrew Wakefield, inglês, que publicou um artigo — comprovadamente hoje, uma falsificação – pretendendo associar a vacina anti-sarampo a autismo, via um inventado síndroma intestinal do autismo. Expulso das ordens inglesa e americana, continua hoje a ter uma próspera vida, graças a clínicas em nome de outros. Para se ter razão na denúncia das pseudomedicinas, é preciso reconhecer que a medicina também tem albergado grandes fraudes.

A coisa do autismo acabou por se diluir em múltiplas contribuições da contracultura para o antivax. Ou eram os excipientes, como o tiomersal, ou por serem químicos (há coisa mais simplesmente química do que a água, H2O?), ou por desregrarem o sistema imune (que passa a vida a ser “desregulado” por exposição a novos antigénios), ou era um vago “peace and harmony with nature”). Assim, do sarampo e da sua base pseudomédica, passou-se para a vacinação, em geral.

É bem sabido que esta vaga, como todas as da contracultura, tem a característica importante de não se radicar num grupo social desfavorecido, inculto, arredado dos benefícios da medicina moderna. Pelo contrário, são classe média ou média-alta, universitários, com um libertarianismo de juventude a fazer de alibi para uma boa vida de “establishment”. É pena que, entre nós, nem esperem por essa idade da hipocrisia.

Há duas doenças virais que, depois da varíola, foram alvo de campanha mundial de erradicação: a poliomielite, vulgo polio, e o sarampo. Em ambos os casos, confiava-se justificadamente na eficácia da vacina, como tinha acontecido com a varíola. No caso da polio, viu-se que há razões técnicas, políticas e sócio-económicas que complicam a perspetiva de erradicação, principalmente no mundo menos desenvolvido. É discussão que não cabe aqui, embora muito importante.

O sarampo é radicalmente diferente, porque o problema está no mundo desenvolvido, onde habitam os antivax. Os EUA vivem hoje uma autêntica epidemia e mesmo nós temos tido surtos inadmissíveis em termos dos meios que temos de saúde pública.

Por razões técnicas que o espaço não me permite desenvolver, cada criança não vacinada, acima de uma percentagem que já ultrapassámos, não é só um risco para si, é principalmente para a comunidade, principalmente em grupos em que ainda está em começo a imunização, como as creches.

Como em muitas outras coisas, não podemos ser maniqueistas. Os pais antivax não são monstros, agressores dos seus filhos. São produto de uma cultura, de movimentos de fluxo e de refluxo da sociedade. Sabem que a raiva, doença mortal e felizmente hoje rara, é tratável com a vacina? Se disserem aos pais de uma criança mordida que a sua única esperança de vida é a vacina, mesmo sendo antivax, como reagirão? E nem falo de homens de negócios que vão a consultas de viajantes recusando todas as vacinas menos a da febre amarela, por ser obrigatória para a viagem de negócios.

Por fatores históricos, a começar pela reação contra a vacinação de Jenner numa Grã-Bretanha muito dependente das liberdades individuais, a vacinação ainda hoje tem uma forte conotação de direito sem dever. O caso italiano é exemplo recente. Era um país com forte imposição da vacinação, mas o movimento populista pseudo-esquerda do 5 Estrelas, que controla o Ministério da Saúde, tornou a vacinação facultativa.

Nós temos oscilado. A vacina antitetânica era obrigatória, assim como foi o BCG. Com a liberdade, veio algum excesso dos direitos individuais em relação aos sociais. Atualmente, temos um ótimo plano nacional de vacinação, mas recomendado, não obrigatório.

Defendo veementemente que devia ser obrigatório, como muitas outras obrigações que temos para contribuirmos, como indivíduos, para o bem comum.

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