11 de março

Falhou-me o calendário e não evoquei a data. Foi marcante, na altura, para quem a viveu na rua em defesa da revolução. Mas também é marcante em termos de análise histórica do nosso processo revolucionário.

Tínhamos já avançado muito. Criação de mecanismos democráticos pós-revolucionários, derrota da pior reação fascista por detrás de Spínola, emergência do poder democrático popular, conquistas de assinaláveis melhorias da situação dos trabalhadores, começo da assimilação dos retornados, conversações com as ex-colónias.

O 11 de março foi um salto qualitativo em relação a esse processo. Lembre-se apenas que, ao mesmo tempo, ele arrasou o plano económico de Sesimbra, moderado e em contemplação com as condições objetivas, sob a orientação de Melo Antunes.

A partir do 11 de março, houve linhas de mudança significativas. Das que enumero, a meu ver a mais sólida foi a da reforma agrária.

1. A começar por essa, a reforma agrária. Testemunhei-a, visitei frequentemente as suas unidades. Ainda hoje tenho presente a coragem, a determinação, o bom-senso, a habilidade política, o sentir coletivo, dos seus agentes. Só a contra-revolução a conseguiu destruir, não os seus erros. Não consigo vê-los.

2. O poder popular. por toda a parte se constituiram comissões de moradores e de trabalhadores, mais grupos avulsos como os de ocupação de casas. Por vezes, chocaram-se com o sentido organizativo tradicional dos partidos, por exemplo em conflitos entre comissões de trabalhadores e sindicatos. Por outro lado, as expressões de poder popular, essencial em qualquer revolução não burocrática ou aparelhística, foram frequentemente instrumentalizados partidariamente, com forte responsabilidade para os esquerdistas. Também aqui se devem analisar os saneamentos, muitas vezes justificados em termos de defesa da democracia conquistada pelo 25 de abril, mas também por outras vezes, e com consequências nefastas para a imagem da revoiução, coisas impolíticas (em política, um erro é pior do que um crime, dizia Talleyrand) mesmo injustas, muitas vezes pessoalistas e de ressentimentos pessoais. O esquerdismo, como no Chile, foi o carrasco que ajudou os mandantes que decretaram o fim da revolução. E eles ainda por aí andam, e não se pode exterminá-los!

3. Erros de voluntarismo e falta de objetividade de análise do PCP. São bem conhecidos e dou apenas um testemunho pessoal. Na véspera das eleições de 1975, um dirigente importante do PCP perguntou-me qual era o meu palpite, ao que eu respondi entre 10 e 15%. Repreendeu-me vivamente pelo meu derrotismo. O resultado foi de 12%! Eu era cientista, ele era político. Seria bom que todos conjugássemos ser cientistas e políticos.

3. Começa mais significativamente a ingerência estrangeira, nomeadamente dos serviços secretos. Não sou ingénuo a ponto de negar que tenha havido influência do KGB, mesmo à margem do PCP e diretamente em contato direto com militares. Julgo saber do que falo. Mas muito mais evidente foi toda a ação exemplificada por Carlucci e a menos conhecida dos serviços secretos franceses (muito orientados para a descolonização, dado que África era sua coutada) e dos alemães, decisivos para se compreender a componente nortenha do 25 de novembro (Pires Veloso, fuga dos oficiais da FA e dos políticos). Também o apoio de toda a imprensa de corrente dominante europeia e a campanha “Europa connosco” do PS, a começar com o inventado caso República.

4. A conjugação de partidos (PS, PSD, CDS) com os poderes fáticos, como a Igreja, para a reação violenta do verão de 1975, o começo do terrorismo de direita. As campanhas de dinamização cultural tinham sido um sucesso? Tinham mudado a mentalidade, a sujeição atávica aos poderes fáticos e embrenhados na cultura? Até Jaime Neves, o grande revolucionário, se ufanou das campanhas. Esqueceu-se a ronha do camponês, a malandrice do Zé povinho, sempre pronto a ser albardado pelo dono da ocasião.

5. A divisão nas Forças Armadas. Não foi nada de novo. A divisão sempre esteve no fundo, disfarçada pelo discurso dominante de justificação muito tardia do alinhamento numa revolução democrática, politicamente aproveitada genialmente por um pequeno grupo de oficiais politicamente cultos (Melo Antunes, Vasco Gonçalves, Martins Guerreiro, talvez Vítor Alves), e também por uma clique desejosa da conquista de poder em torno de Spínola. O resto foi uma enorme confusão, de motivações e contradições ideológicas e de “sentido comum”, mas certamente com um alinhamento com o socialismo que tinha muito de oportunismo, de incultura política ou de radicalismo pequeno-burguês.

6. Desde o 25 de abril, e sendo os militares apenas peões desse conflito, estiveram em confronto duas visões, duas estratégias. Devo este parágrafo a uma conversa lúcida, há dias, com o meu amigo José Manuel Correia Pinto, em que chegámos a este ponto fundamental. Por um lado, a estratégia do “Rumo à Vitória”. Por outro lado, a via social-democrata, de transição (depois vista à espanhola), de Mário Soares. Já eram patentes, por exemplo e pelo que tive de interveniente, no movimento associativo. Depois, muito mais evidente, na divisão CDE CEUD em 1969.

Com variantes menores de facto, o 25 de abril cumpre na prática a tese de Cunhal, do levantamento popular armado. É facto que o povo não participou armado, mas a ação militar fez-se com o povo, desde a primeira hora, e por ele fortemente condicionada. Também a tese de que a democracia só seria possível com o derrube do poder político-económico que a sustentava, de um capital monopolístico e de outra forma fraco e da oligarquia latifundiária, bem como o controlo dos poderes fáticos suporte do salazar-fascismo: a magistratura, a Igreja, a universidade, a comunicação social. Neste último aspeto, ficou muito por fazer.

O movimento popular e boa parte do MFA fez sua esta bandeira e fez cumprir boas parte daquele programa em muito devido ao génio de Cunhal (não estão aqui em causa muitas razões pelas quais Cunhal não é meu ídolo).

Mas “it’s the dialectics, stupid!”. No terreno concreto da origem de classe da maioria dos oficiais das FA, com uma falsa hegemonia conquistada na informação, porque desvirtuada e facilmente desmentida ou contrariada em termos equivalentes, com grande apoio internacional e, muito principalmente, com o lastro de décadas de anticomunismo e com o “sentido comum” da democracia ocidental convencional, até lembrada na campanha de Delgado, a vitória reacionária do 25 de novembro é perfeitamente compreensível.

Eu continuo a celebrar interiormente o 11 de março, embora reconhecendo muitos erros posteriores. Sim, mas foi um grande salto de um processo revolucionário e a História ensina que não houve verdadeiro processo histórico de conquista político-civilizacional sem roturas revolucionárias, mesmo que falhadas no momento mas sucedidas no futuro (como a Comuna).

E, apesar de muitas vezes ter pensado que eu heterodoxo e contestatário bem podia ter sido perseguido por um regime à thermidor que foi impedido pelo 25 de novembro, não consigo celebrar essa data.

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