Citações ao contrário

Nuno Pacheco inclui num seu artigo do Público o caso que já aqui comentei de uma das mais frases literárias adquirir sentido oposto fora do contexto. Trata-se de quando Bernardo Soares (Fernando Pessoa) escreveu “A minha pátria é a língua portuguesa”. É verdade, mas seguida de barbaridades intelectuais e ideológicas, conservadoras e de desprezo pelo povo simples. Desafio a irem ler; é só “googlar”.

Menos conhecido é talvez o contexto em que Lorde Byron coloca a sua tão utilizada entre nós, para fins turismo, admiração por Sintra (Cintra), sempre citada nos folhetos da região. Pois é, lá está na “Peregrinação de Childe Harold”, mas seguido de coisas como “uma nação inchada de ignorância e orgulho, a lamber a mão que segura a espada que a defende [JVC – a Inglaterra, contra os franceses].” Ou “os [visitantes] que entrem naquelas ruas, veem peles e palácios como coisa imunda”. (…) “Os habitantes encardidos são criados na terra; nenhum personagem de alto ou médio nível cuida da limpeza do casaco ou da camisa.”

E o contraste gente-natureza, para Byron, é bem expresso, por exemplo, nestes versos: “Escravos pobres e desprezíveis! E todavia nascidos no meio dos mais nobres cenários / Por que razão, Natureza, desperdiças as tuas maravilhas com tais homens?”

Eu até posso dar razão a Byron, de outro prisma, mas não deixo de pensar que o turismo de Sintra é ignorante, ou masoquista, ou de um oportunismo sem limites.

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